quarta-feira, 18 de março de 2015

Bula ou só para uns poucos





bula
de remédio
vem com aviso

quem bole
remedeia
vem também
faz de conta 
que não vê ninguém

bula
de maldade
vem com aviso

bula 
de mistério 
não
esse 
só mesmo quem pode tem
e não mostra
para quem não é ninguém


#moniquefranco, sem remédio mas com bula.
Fotografia: Adam Magyar

terça-feira, 17 de março de 2015

Premeditação ou efeito pérola

Fotografia:#moniquefranco, dezembro de 2014



pudeste meu rei
pudeste?
rasgar os adereços que vestes?
a manta é pesada
o fardo escolheste
viver a vida sorrindo
fazer de cada ato gentil
é engodo
que pode virar lodo
ostra feliz não faz pérola
um grão de areia é o bastante
para lembrares o que sucedeu
se tu não sabes
vá!
veja quem foi Prometeu !

pudeste meu rei
pudeste?
de perto olhar tua amada
sem precisar a ti defender com espadas
a fala é dura porque é vida
o sangue é quente porque circula
mas não existem verdades
puras
o que há são efeitos
feitos dos feitos
deixam lastros
abrem ou fecham rastros

pudeste meu rei
pudeste?
fazer a lição de casa
ir à gramática
das tuas afinidades desfeitas
e encarar frente a frente
que teus eleitos, teus leitos
não podem ameaçar teu reino
pois tuas armas
de tu mesmo escondeste
ou quebraste
em algum momento da estrada
logo tu que tens a arte da palavra
enfraqueceu dom divino
acorrentando de rima
o que é ventania e chuvarada
não te iludas
o poema não vem do nada
é o inconsciente clamando
sair em revoada

pudeste meu rei
pudeste?
esconder de ti o que a ti faz tão bem
só porque
o real a ti não convém
ele vem recheado de lutas
travadas
mas que delas tu desertaste
por isso como filho à casa retornas
e sempre há de haver
uma escusa na-morada
mas teu castelo é assombrado
tens muita dívida na memória
compraste e não pagaste
pois quando eras príncipe
tudo podias
mas por princípio rei te tornaste
mas te vestiste apressado
afinal só aprendeste
pular o muro ao lado
e o sabor sempre esteve no pecado
por isso quando rezas, oras, pedes
os Deuses dão gargalhadas
não vês?
estás de calças curtas
mesmo que teu jeans esteja surrado

efeito pérola
pares não antagônicos
tampouco necessariamente harmônicos
mas que emanam perfeição
ostra esculpida internamente
pela fina tarefa da mão
invisível
modo de proteção
a vida não ensina em vão
mas não espera a reencarnação
passa rápido
para quem não a pega pela mão
a felicidade é um estado
como nos ensinou o poeta
é do sofrer que vem o poder alado
de voar sem sair do chão
mas ao negar a dor
o mergulho é na escuridão
ainda que os gestos espalhem
o que de suposto chamas
gratidão

pudeste meu rei
pudeste?
rasgar os adereços que vestes?
a manta é pesada
o fardo escolheste
viver a vida sorrindo
fazer de cada ato gentil
é engodo
que pode virar lodo
ostra feliz não faz pérola
um grão de areia é o bastante
para lembrares o que sucedeu
se tu não sabes
vá!
veja quem foi  Prometeu!


#moniquefranco, com brinco de pérolas a mergulhar no vai e vem do mar













sábado, 14 de março de 2015

Dissimulados ou sobre a política dos corpos


Imagem: Corpo estranho, Pier Tofolleti



os dissimulados deixam claro
dois lados
nós
é que acabamos
por não ver
um dos lados
os dissimulados emulam
nós
desavisados
seguimos mais puros
mesmo que seja duro
e escolhemos nosso lado.

#moniquefranco

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sinais




quem quiser que não veja
brilhando o absurdo
por onde a aparência não chega
que estupido não perceba
a marca das luas
o colo das mães
a cicatriz de gerar todas as vidas

quem quiser que não se perca
e faça que não entende os sinais
não aprendeu certos códigos
não desenvolveu a visão

quem quiser 
porque a mim não me apetece pensar
que escolha a forma da morte
e tome o trajeto do mar
que a mim não sucede cavalheiro
não sucede
que o eu vestida de aço e luta
é forte e é negro e luta
com a armadura da ironia
e a chave forte do deboche 
contra as aflições desse não

o eu luta fino e encharca de sangue 
essas tardes mortais 
que também não viram
tal qual genuína arte exige
tal qual a genuína entrega requer
que eu luto porque sei que lutam muitos
mis
vários com a luz vermelha assinalando a vida dessa dor como a percebo em seus olhos
porque quero ver
porque de mim você não consegue se esconder

quero morrer
do que sobrar das nossas cinzas
eu vejo.

#moniquefranco, ao meu gato Che e aos  homens que por instante sagrados de luto se encontraram com o além de si, 27 de outubro de 2013

domingo, 1 de março de 2015

Trust ou sobre um certo Hal Hartley



confiança
fia junto
dia a dia
ou a distância

voa solto
larga o outro
solta o corpo
na espera
esperança

que o salto
sempre alcance
o abraço
que acalante.


#moniquefranco

Ouça!